quarta-feira, 23 de julho de 2008

Dieta Acidental

Publicado pelo site UOL 07/01/2006 por STEVEN LEVITT:

"A dieta acidental

Tudo começou quando Seth Roberts era um estudante universitário. Primeiro ele teve a boa idéia de transformar seus problemas pessoais em objetos de pesquisa. Aí decidiu usar o próprio corpo como laboratório

STEVEN LEVITT*

Seth Roberts é um professor de psicologia de 51 anos na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Se você conhecesse Roberts há 25 anos poderia lembrar dele como um homem cheio de problemas. Roberts tinha a pele cheia de acne e acordava cedo demais na maior parte das manhãs, o que o deixava exausto. Ele não era um deprimido do ponto de vista clínico, mas se sentia mal humorado com frequência. E para piorar também estava acima do peso: com 1,83m, pesava 90kg.

Hoje em dia, quando você encontra Seth Roberts vê um homem de pele limpa, de aparência bem descansada, que pesa uns 72kg, a quem você daria uns dez anos a menos.

Como isso aconteceu?

Começou quando Roberts era um estudante universitário. Primeiro ele teve a boa idéia de transformar seus problemas pessoais em objetos de pesquisa. Aí decidiu usar o próprio corpo como laboratório.

Foi assim que Roberts embarcou numa das mais longas jornadas de auto-verificação científica já empreendidas pelo ser humano: não apenas se apalpando, se espetando e se medindo muito mais do que o normal, mas registrando rigorosamente todos os dados e medidas atingidos nesse processo.

A auto-experimentação, embora não seja propriamente uma idéia nova para a ciência, ainda é uma atitude rara. Muitos cientistas modernos a desconsideram, como se não fosse um procedimento suficientemente científico: nele não há um grupo de controle óbvio, e também dificilmente se pode levar adiante um método duplo-cego quando o cientista e o objeto de estudos são a mesma pessoa.

Mas será que não devemos considerar como legítima a natureza nem-tão-científica da auto-experimentação? Afinal, várias experiências científicas baseadas em laboratórios, especialmente as que ocorrem no campo da medicina, são posteriormente consideradas comprometidas por sua metodologia pobre ou por um evidente auto-interesse.

No caso de Roberts, o auto-interesse é radical, mas pelo menos é óbvio. A metodologia dele é tão simples --tentar um milhão de soluções até encontrar uma que sirva-- que produz uma transparência absoluta.

Sob alguns aspectos, a auto-experimentação tem mais pontos em comum com a economia do que com as ciências exatas. Se não tiverem a habilidade de conduzir experiências ao acaso, aos economistas muitas vezes só restará a possibilidade de aproveitar quaisquer dados que possam aproveitar.

Digamos que você seja um economista tentando medir o impacto do estado de aprisionamento sobre os índices de criminalidade. A metodologia ideal pediria que alguns poucos Estados americanos escolhidos ao acaso de repente libertassem 10 mil prisioneiros, enquanto outros poucos Estados determinados aleatoriamente mantivessem presos outros 10 mil detentos.

Na ausência de uma metodologia tão perfeita, você é obrigado a se apoiar em dados aproximados de maneira criativa --como os processos legais que indiciam vários Estados americanos por conta da superlotação nas prisões, o que no final das contas leva à soltura, basicamente ao acaso, de um grande número de prisioneiros. (Sim, os índices de criminalidade nesses Estados efetivamente sobem de maneira acentuada, depois que os prisioneiros são libertados.)

E poderia haver um jeito mais oportunista de produzir dados científicos do que explorar o seu próprio corpo? Roberts começou modestamente, observando sua acne, depois passou a observar seu próprio despertar precoce pelas manhãs. Isso lhe custou mais de dez anos de auto-experiências, e ele acabou descobrindo que sua insônia matinal poderia ser curada se, na véspera, ele não comesse nada no café da manhã e passasse mais de oito horas em pé.

Ainda mais estranho foi a cura que ele encontrou para o seu mau humor: ele passou a assistir a pelo menos uma hora de TV todas as manhãs, especificamente assistindo aos programas com apresentadores que falam diretamente aos espectadores --mas sem assistir aos programas noturnos.

Quando se viu diante dessa solução que encontrara, Roberts, como muitos cientistas, foi até à Idade da Pedra para encontrar uma explicação. A pesquisa antropológica sugere que os primeiros humanos tinham vários contatos face-a-face todas as manhãs mas bem poucos contatos desse tipo após o anoitecer, um padrão que agora passaria a ser mimetizado nos hábitos de Roberts enquanto telespectador.

Foi também a Idade da Pedra que inspirou o sistema dele para controlar o peso. Ao longo dos anos, ele já havia tentado a dieta do sushi, a dieta dos alimentos em tubos de pasta, a dieta dos cinco litros de água por dia e várias outras. Todas elas se mostraram ineficazes ou rígidas demais ou então monótonas demais.

Ao longo das pesquisas, ele adotou a teoria de que nossos corpos são regulados por um "ponto de regulagem", uma espécie de termostato da Idade da Pedra que estabelece um peso ideal para cada pessoa. Só que esse termostato funciona do jeito oposto ao que você tem nas máquinas em sua casa.

Quando sua casa fica muito fria, o termostato restabelece o calor. Mas de acordo com a teoria do ponto de regulagem , quando há menos comida disponível, você fica com "menos" fome; e você fica mais faminto quando há muita comida por perto.

Isso pode soar como um contrasenso, como se a lareira de casa funcionasse apenas no verão. Mas há uma diferença fundamental entre o aquecimento doméstico e as calorias: se por um lado não há um jeito eficaz de armazenar o ar quente em sua casa para o próximo inverno, existe SIM um jeito de guardar as calorias de hoje para uso futuro.

Isso se chama gordura. Sob esse aspecto, a gordura é como o dinheiro: você pode ganhar algum hoje, guardar no banco e retirar mais tarde quando for necessário. Durante a era da escassez --uma era onde a próxima refeição dependia de uma caçada bem sucedida, e não de uma ligação bem sucedida para o restaurante chinês-- esse sistema de ponto de regulagem era vital. Permitia ao ser humano queimar suas reservas de gordura quando a comida estava escassa, e fazer depósitos quando a comida estava abundante.

Roberts acredita que esse sistema era acompanhado de um poderoso mecanismo sinalizador: toda vez em que você comia um alimento saboroso (associado a um tempo de abundância) ou de gosto familiar (indicando que você já havia comido esse alimento antes e se beneficiado dele), seu corpo exigia que você armazenasse o máximo possível dessas calorias apetitosas.

Roberts acreditou que esses sinais são associações de conhecimento adquirido --tão confiáveis como a campainha nas experiências de Pavlov-- que no passado também serviram à humanidade.

Mas hoje em dia, pelo menos em lugares onde temos constantes oportunidades para alimentação, esses sinais podem levar a um grande problema de gordura. Roberts então decidiu aplicar esse sistema da Idade da Pedra. E se ele pudesse manter seu termostato baixo enviando menos sinais de sabor? Uma solução óbvia seria uma pura e simples dieta, mas isso não interessou a Roberts (na verdade ele é um tremendo glutão). Após muitas experiências, ele descobriu dois agentes capazes de driblar o sistema do ponto de regulagem.

Algumas colheres de sopa de óleo de cozinha sem sabor (ele usou o de canola ou então o óleo de oliva extra light), ingerido algumas vezes por dia entre as refeições, dava ao corpo dele algumas calorias mas não enviava sinais para armazenamento de mais calorias. Algumas doses de água adocicada (ele usou a frutose granulada, que tem um índice glicêmico mais baixo que o açúcar normal de mesa) produziram o mesmo efeito. (A doçura não parece agir como um "sabor" no sistema sinalizador de calorias do organismo.)

Os resultados foram impressionantes. Roberts perdeu 18 quilos em três meses e nunca mais os teve de volta. Ele podia comer o quanto quisesse e quando quisesse, e sentindo bem menos fome do que sentia antes.

Amigos e colegas experimentaram essa dieta, geralmente com os mesmos resultados. O regime dele parecia atender a uma série de requisitos não cumpridos por muitas dietas comerciais: era fácil de seguir, elaborado de acordo com uma teoria científica e, o mais importante, não deixava Roberts com fome.

Na comunidade acadêmica, a auto-experimentação de Roberts encontrou críticos mas também sérios admiradores. Entre esses admiradores está o aclamado psicólogo Robert Rosenthal, que louvou Roberts por "abordar os dados estatísticos movido por um espírito desbravador, mais do que, ou pelo menos além de, ser movido por um espírito de comprovação", e por encarar a análise dos dados "como uma oportunidade para se deparar com uma surpresa".

Rosenthal se entusiasmou tanto que até previu "um tempo no futuro onde o 'auto-experimentador' se treansformará numa nova profissão de meio-expediente (ou até em expediente integral)".

Mas será que essa estranha solução encontrada por Seth Roberts --que ele já batizou de Dieta de Shangri-La-- realmente irá funcionar para as milhões de pessoas que precisam de um regime?

Logo poderemos descobrir. Com a empresa da Dieta de Atkins naufragando, os americanos estão ansiosos pela próxima dieta salvadora.

E algumas colheres de açúcar podem representar mesmo o tipo exato de sacrifício que os americanos podem tolerar."

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